Saúde · Ciência

Um exame de vista pode prever infarto, AVC e demência antes dos sintomas

Estudo da Universidade de Manchester usa inteligência artificial para ler nos olhos sinais precoces de doenças do coração e do cérebro, abrindo caminho para um rastreio que caberia dentro de uma ótica de bairro

Paciente faz exame de fundo de olho em equipamento de oftalmologia
Exames de retina já comuns em óticas podem se tornar ferramenta de rastreio de doenças do coração e do cérebro. — Foto: arquivo

O mesmo exame que você faz para descobrir o grau dos óculos pode, em alguns anos, dizer muito mais sobre a sua saúde do que a sua visão. Um estudo publicado nesta terça-feira (16) na revista científica Nature Cardiovascular Research mostrou que uma inteligência artificial é capaz de detectar, em imagens da retina, sinais precoces de doenças do coração e do cérebro muito antes de qualquer sintoma aparecer.

A pesquisa foi conduzida por uma equipe da Universidade de Manchester, no Reino Unido, em parceria com o Manchester Royal Eye Hospital, e analisou imagens dos olhos de mais de 68 mil pessoas do banco de dados UK Biobank.

O que a IA enxergou nos olhos

Os cientistas treinaram uma ferramenta batizada de Ret-AAE para interpretar dois tipos de imagem já comuns em consultórios de oftalmologia: a tomografia de coerência óptica (OCT), que faz uma varredura tridimensional das camadas internas do olho, e as fotografias coloridas do fundo do olho.

O resultado surpreendeu pela amplitude. A aparência dos olhos mostrou-se ligada ao risco de insuficiência cardíaca, pressão alta, infarto, doença de Parkinson, demência e outros quadros neurodegenerativos. Em outras palavras, os pequenos vasos sanguíneos da retina funcionam como uma janela para a saúde de todo o corpo.

Houve até uma divisão de papéis entre os exames. Segundo o estudo, as imagens de OCT apareceram mais associadas a traços neurológicos, enquanto as fotografias do fundo do olho se conectaram de forma mais ampla à saúde cardiovascular. Os dois exames, juntos, oferecem sinais complementares sobre o que pode acontecer no futuro.

Por que isso importa para você

A grande promessa é a prevenção. Hoje, muitas pessoas só descobrem que estão em risco de infarto ou AVC depois que o problema já se instalou. Um exame rápido, indolor e barato, feito na ótica do bairro, poderia sinalizar quem precisa de atenção médica anos antes.

"Nossos achados mostram que o olho pode revelar um retrato notavelmente amplo da saúde de todo o corpo, oferecendo uma forma de identificar quem está em risco de doença cardíaca e cerebral antes que ela ocorra", afirmou o líder do estudo, o pesquisador Tom Julian, em comunicado da Universidade de Manchester.

Para o professor Alejandro Frangi, coautor do trabalho, a mudança seria profunda no dia a dia: "Usando exames disponíveis em qualquer rua comercial, um teste de vista pode se tornar muito mais do que uma maneira de verificar o grau dos óculos".

Promessa real, mas ainda não na esquina

Os próprios autores fazem questão de moderar o entusiasmo. A tecnologia ainda precisa de mais validação antes de chegar às óticas como ferramenta de rastreio. Fatores como idade, etnia, cor natural dos olhos e a presença de catarata influenciam as imagens e precisam ser levados em conta para evitar erros de interpretação.

"Embora ainda seja necessário mais trabalho antes que esses testes cheguem às ruas, esperamos e acreditamos que os exames de vista de rotina um dia farão parte do rastreio de saúde para a prevenção de doenças", ponderou o pesquisador Panos Sergouniotis, também coautor.

O olho deixa de ser apenas o lugar onde se mede o grau dos óculos e passa a ser um ponto de checagem da saúde do coração e do cérebro.

Em um gesto que tende a acelerar a pesquisa na área, a equipe disponibilizou publicamente o código da ferramenta Ret-AAE, permitindo que outros cientistas do mundo todo testem e aprimorem o método. Se a tecnologia se confirmar em estudos maiores e mais diversos, o singelo exame de vista pode virar uma das portas de entrada mais acessíveis para a medicina preventiva.

Com informações de: Universidade de Manchester, Nature Cardiovascular Research e Mirage News.

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